#5 – Coragem
Um dia eu acordei e resolvi (re)começar um projeto para os meus 40 anos. #40textos
Uma amiga me chamou para conversar, compartilhar uma proposta de trabalho que recebeu. Sabe aquelas propostas que podem mudar sua vida? Não necessariamente é um salário maior, às vezes é uma posição estratégica em uma empresa relevante, algo que pode enriquecer seu currículo, alavancar sua carreira... Uma proposta irrecusável.
Ela estava decidida e tinha um plano, inclusive, para deixar o trabalho atual e ir para esse novo. Mas queria contar e me ouvir: “Você é corajosa!”
Essa afirmação de que eu era uma “musa corajosa” me surpreendeu. Eu nunca me vi assim, mesmo já tendo tomado riscos bem altos em algumas situações da vida.
Sempre enxerguei a coragem como o cinema me apresentou. William Wallace, personagem de Mel Gibson em “Coração Valente” é corajoso (entre outras qualidades, né?!). O próprio Gibson me parece ser uma pessoa corajosa, já que decidiu bancar “A Paixão de Cristo” a contragosto do ceticismo de Hollywood com o filme. Esperavam um fracasso comercial; receberam um dos grandes clássicos do cinema com arrecadação de mais de US$600 milhões.
Para mim, coragem vem com toda a descrição do Aurélio ou do Michaelis: força moral, energia ou firmeza de espírito para enfrentar situações difíceis, perigosas ou moralmente arriscadas.
Bom, se ser uma pessoa corajosa é agir com firmeza em situações de perigos ou dificuldades, talvez eu tenha um pouco disso...
Talvez o que mais seja visto como coragem é, para mim, o resultado de decisões um pouco mais impulsivas. Já troquei um emprego relativamente estável por uma oportunidade temporária, por exemplo. Não ganhei rios de dinheiro, mas fiz contatos importantes e úteis até hoje, nesse caso. E já deixei uma oportunidade que esperei por quase 20 anos de lado para tentar um sonho. Essa é mais doída, merece um texto específico.
Pode ser que a coragem não more no gesto cinematográfico, no discurso antes da batalha, no rosto pintado de azul gritando “freedom”, mas naquele segundo silencioso em que a gente entende que vai perder alguma coisa e, mesmo assim, segue em frente.

Talvez seja menos uma virtude de gente destemida e mais uma espécie de acordo com o medo. Algo meio aristotélico que equilibra o frio na barriga com algum nível de confiança. Sentir o medo e, ainda assim, assinar o pedido de demissão, dizer não para uma vida que parecia segura, dizer sim para uma possibilidade sem garantias, começar de novo quando já se tem idade suficiente para saber o preço das coisas.
No fim das contas, talvez coragem seja isso: não a ausência de medo, mas a recusa delicada, e às vezes meio atrapalhada, de deixar que ele escolha a nossa vida por nós.
Acho que vou ter que dar razão a minha amiga. Sou mesmo corajosa. A ponto de desengavetar um texto guardado há meses, finalizar e publicar, mesmo sabendo que esse clichê da coragem já foi melhor retratado milhares de vezes e, possivelmente, ninguém mais aguenta ouvir, ler e ver essa historia.


Coragem...